Contrato entre escritório de Ibaneis e Reag custou R$ 38 milhões

Contrato entre escritório de Ibaneis e Reag custou R$ 38 milhões

Um contrato firmado em 2024 entre o escritório particular de advocacia ligado ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e um fundo administrado pela Reag Investimentos passou a ser alvo de questionamentos políticos e de um pedido de investigação apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O acordo foi assinado em 29 de maio de 2024 entre o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria, outra banca de advocacia e o fundo Reag Legal Claims — atualmente chamado de Pedra Azul FIDC. Pelo documento, os escritórios cederam ao fundo R$ 38,12 milhões em honorários advocatícios que ainda não haviam sido recebidos em uma ação movida pelo Sindicato dos Servidores do Legislativo Federal (Sindilegis).

Esse tipo de operação funciona como uma antecipação de pagamento. Na prática, os escritórios transferem ao fundo o direito de receber os honorários e recebem um valor menor de forma imediata. O contrato não informa qual foi o valor efetivamente pago pelo fundo nem qual foi o desconto aplicado na negociação.

Nos meses seguintes à assinatura do acordo, o Banco de Brasília (BRB) realizou um aporte de R$ 16,7 bilhões no Banco Master e iniciou uma tentativa de compra da instituição. A operação acabou barrada pelo Banco Central, e o banco distrital ainda tenta recuperar os recursos investidos.

Na representação enviada ao STF, a oposição cita a participação do executivo Marcos Ferreira Costa, ligado à Reag Investimentos. Registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que ele aparece como diretor do fundo Pedra Azul FIDC, responsável pela compra dos créditos do escritório de advocacia.

O mesmo executivo também aparece posteriormente como representante da Reag em uma assembleia de acionistas do BRB realizada em março de 2025, que aprovou um aumento de capital do banco. Naquele momento, a gestora já possuía mais de 10% das ações do BRB, registradas em nome do fundo Borneo FIP Multiestratégia.

A Reag Investimentos foi fundada em 2013 e se tornou uma das maiores gestoras independentes do país, administrando recursos de pessoas físicas, empresas, fundos de pensão e investidores institucionais.

Em janeiro deste ano, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, novo nome da Reag Trust DTVM, responsável pela gestão de fundos do grupo. A medida ocorreu após a segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga possíveis irregularidades no sistema financeiro e a atuação de integrantes ligados à antiga estrutura da gestora em supostas fraudes envolvendo o Banco Master.

As investigações apontam suspeitas de que a empresa teria participado da estruturação e administração de fundos usados para movimentações consideradas atípicas, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro.

A gestora também é citada em outra investigação federal, chamada de Operação Carbono Oculto, que apura o uso de fundos de investimento para lavagem de dinheiro por integrantes de uma organização criminosa.

Paralelamente, o tema também gerou movimentação política na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Após deixar a base do governo, o PL apresentou um pedido de criação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as operações entre o Banco Master e o BRB.

Um requerimento semelhante apresentado anteriormente por deputados da oposição também pede investigação sobre o caso, mas até agora nenhum dos pedidos alcançou o número mínimo de assinaturas necessárias para a instalação da comissão.

Caso seja criada, a CPI terá como objetivo apurar as transações realizadas entre as duas instituições financeiras, especialmente após o investimento bilionário feito pelo BRB no Banco Master.

As operações acabaram fragilizando o patrimônio do banco público e levantaram preocupação sobre o cumprimento das regras prudenciais do sistema financeiro, que exigem níveis mínimos de solidez para proteger correntistas e investidores. Desde então, o BRB e o governo do Distrito Federal buscam alternativas para recompor o caixa da instituição.

Críticas da oposição

Em meio à repercussão do caso, o ex-interventor da segurança pública do Distrito Federal e atual opositor político, Ricardo Cappelli, publicou um vídeo nas redes sociais criticando a relação mencionada no contrato e as operações envolvendo o BRB.

Ao comentar o assunto, Cappelli afirmou que o contrato levantaria questionamentos sobre possíveis interesses nas negociações envolvendo os bancos. “Segundo a reportagem, o escritório de Ibaneis Rocha tem um contrato de 38 milhões com o Fundo Reag”, disse.

Em outro trecho do vídeo, ele também mencionou a relação entre o fundo e o Banco Master. “O Fundo Reag é sócio do Banco Master. O BRB tentou comprar o Master e passou bilhões de reais para o banco”, afirmou.

Cappelli também declarou que pretende apresentar uma nova medida política na Câmara Legislativa. “Nós vamos entrar hoje com um novo pedido de impeachment na Câmara Distrital”, afirmou.

Nota da defesa

A defesa do Governador Ibaneis Rocha esclarece que ele está afastado do escritório de advocacia desde 2018, de modo que não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento.

Esclarece-se, ainda, que o Governador Ibaneis nunca participou de quaisquer negociações com o Sr. Marcos Ferreira Costa, tampouco com outros representantes dessa empresa. Todas as informações que detém sobre o grupo foram adquiridas a partir de matérias de jornais, já no presente ano.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
Roberta Castro Queiroz
Marcelo Turbay Freiria
Liliane de Carvalho Gabriel
Álvaro Chaves
Ananda França de Almeida.

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