Filha de idoso relata como funcionava o esquema do falso empréstimo
Familiares denunciam que intermediárias prometiam “abrir margem” para novos créditos, enquanto realizavam empréstimos sem autorização em nome dos aposentados. Uma das vítimas é a filha de um idoso que decidiu procurar a reportagem do Jornal Opção, sem se identificar, após descobrir descontos indevidos no benefício do pai. Em relato enviado, ela afirma que conhecia uma das suspeitas porque era cliente do seu salão de beleza. “Eu entrei em contato com ela porque ela era minha cliente, eu sou cabeleireira. Eu sabia que ela era correspondente bancária, então procurei ela para fazer um empréstimo de R$ 5 mil para o meu pai. Na realidade, eu só perguntei se estava abrindo a margem dele”, contou.
Segundo a mulher, a correspondente informou que não havia margem disponível, mas afirmou que “sabia como liberar”. A partir daí, ela teria sido encaminhada para outra mulher, apresentada como correspondente ligada ao Banco C6. “Ela falou que era para eu seguir todas as instruções dessa outra pessoa, que aparentemente era uma correspondente do Banco C6”, relatou.
Transferências e reconhecimento facial levantaram suspeitas
A filha do aposentado afirma que, durante o processo, valores começaram a ser enviados para a conta do pai, o que fez a família acreditar que se tratava de um procedimento legítimo para liberação de crédito. “Nessa história de abrir margem, elas ficavam mandando dinheiro para a conta do meu pai, como se realmente fossem elas que estivessem fazendo isso para liberar o empréstimo. Eu não desconfiei”, disse. Porém, na realidade, de acordo com a familiar, eram as liberações de empréstimos sendo feitos.
Ela afirma que a confiança nas suspeitas aumentou porque uma delas frequentava a casa da família e mantinha proximidade com o idoso. “Ela veio aqui em casa, fez todos os trâmites com o meu pai, falava da família dela para ele, porque meu pai conhece a família dela. Então a gente fazia as transferências sem suspeitar que eram empréstimos sendo feitos no nome dele.”
A reportagem teve acesso a mensagens trocadas entre familiares da vítima e uma mulher identificada como correspondente financeira. Na conversa, a atendente afirma que seria necessário quitar parcelas para “liberar margem” de aproximadamente R$ 15 mil para um novo empréstimo.
Em outro trecho, ela orienta a realização de reconhecimento facial e menciona o envio de cerca de R$ 1,9 mil antes da liberação do suposto crédito. “Encaminhamos um link para ele formalizar a foto do rosto”, escreveu a interlocutora em uma das mensagens.
Descontos no benefício revelaram possível fraude
A filha do aposentado contou que começou a desconfiar após o benefício do pai ser transferido da Caixa Econômica para o banco BMG, passando a sofrer descontos mensais de cerca de R$ 700. “Veio descontando R$ 700 do pagamento dele. Só que aí elas devolveram esse valor porque o desconto veio duas vezes”
Segundo ela, a fraude só foi descoberta depois de uma conversa com uma amiga que também trabalhava com empréstimos consignados. “Eu fui conversar com uma colega minha, que também era correspondente, e ela falou que isso não existia.”
A partir daí, a família percebeu que os valores enviados e os procedimentos realizados eram, na verdade, contratos de empréstimos feitos em nome do idoso.
Mesmo após descobrir os descontos, a mulher afirma que ainda tentou resolver a situação diretamente com as suspeitas. “Eu falei para ela: ‘eu já sei que vocês estão fazendo empréstimo no nome dele e a gente não autorizou’. Pedi para devolverem o dinheiro.”
Ela conta que passou dias cobrando uma solução e chegou a ameaçar registrar ocorrência policial e expor o caso nas redes sociais. “Eu dei prazo para ela devolver o dinheiro. Hoje eu ia registrar a ocorrência, mas acordei com a notícia de que ela já estava presa.”
Apesar da investigação policial, a filha afirma que ainda tinha esperança de resolver a situação sem precisar recorrer à Justiça. “Na realidade, eu ainda tinha esperança de que ela ia devolver o dinheiro, sabe? Que era realmente um mal-entendido.”
Polícia apura atuação de grupo contra idosos
O caso se soma à investigação já conduzida pela Polícia Civil sobre um suposto esquema de fraudes financeiras contra idosos em Santo Antônio do Descoberto. Conforme revelou anteriormente o Jornal Opção Entorno, cuidadores e intermediários financeiros são suspeitos de realizar empréstimos consignados, transferências bancárias e movimentações financeiras sem autorização das vítimas.
As investigações apontam prejuízos que podem ultrapassar R$ 50 mil. A Polícia Civil orienta que possíveis vítimas procurem a delegacia com contratos, extratos bancários, comprovantes de transferência e conversas mantidas com os suspeitos.
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